Existe uma armadilha confortável na vida adulta:
acreditar que, porque já passamos por determinada experiência, sabemos tudo
sobre ela. Quase todo mundo foi aluno. Poucos, por isso, se tornam capazes de
compreender o trabalho de quem educa.
Uma pessoa pode ter anos de profissão e ainda
precisar estudar. Um médico atualiza conhecimentos, um jornalista revê
certezas, um arquiteto acompanha novas técnicas. Não existe vergonha em
descobrir que aquilo que aprendemos ontem já não responde inteiramente às
perguntas de hoje. Estranho seria o contrário!
Vamos imaginar um adulto com deficiência que se
recusa a estudar porque acredita que já aprendeu o suficiente. O mundo muda
diante dessa pessoa, novas ferramentas surgem, direitos são ampliados,
tecnologias transformam profissões, relações de trabalho se reorganizam. Ainda
assim, essa pessoa permanece onde está: convencida de que seu conhecimento
basta. A deficiência não seria o obstáculo. A recusa em continuar aprendendo,
sim.
Com a educação acontece algo semelhante. Muitos
adultos entram em discussões sobre escola carregando apenas a memória da
própria infância. Querem interpretar métodos, julgar professores, determinar
condutas e explicar o que uma criança precisa, como se a passagem pelo banco
escolar lhes tivesse concedido um diploma invisível em educação.
Quando surge um problema, a busca por solução
pode ser substituída pela busca por aliados. Um grupo de mensagens cresce,
opiniões se acumulam, versões circulam e, quando alguém percebe, uma questão
entre poucos adultos já alcançou uma plateia inteira. A antiga quinta série
ganhou conexão da internet.
E existe uma diferença decisiva entre participar
da vida escolar de um filho e acreditar que participação dá licença para ocupar
todos os lugares. Isso se torna ainda mais delicado quando envolve alunos com
deficiência. Uma barreira de acessibilidade, uma atitude capacitista ou uma
dificuldade de aprendizagem exige informação, diálogo e ação responsável. A
criança não precisa de adultos competindo para descobrir quem tem a versão mais
convincente. Precisa de gente disposta a compreender o fato antes de reagir a
ele.
Conhecimento nunca é demais. O perigo pode estar
justamente na convicção de que já sabemos o bastante. Educar exige estudo. Conviver
também. E talvez algumas das perguntas mais importantes da vida adulta comecem
justamente quando deixamos de ter tanta certeza das respostas.
Deixo aqui um pequeno convite: o que vamos
estudar hoje?
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