Vivemos cercados por pessoas que preferem editar
suas vidas. Bastam alguns minutos nas redes sociais para encontrar essa
percepção. Quase tudo parece caber em uma fotografia bonita. O problema começa
quando a pessoa com deficiência coloca aquela imagem diante da própria
realidade e passa a acreditar que está atrasada na corrida de uma vida que, na
verdade, nunca foi disputada em igualdade de condições.
A comparação é uma péssima conselheira porque
desconhece a parte da história que não foi publicada. Ninguém coloca na tela a
porta que se fechou antes do contrato assinado. A espera por uma oportunidade
que demorou anos. O cansaço depois de precisar explicar, mais uma vez, aquilo
que deveria ser evidente. Publica-se a conquista. Raramente o percurso inteiro.
Precisamos criar o hábito de fazer uma simples
reflexão e também aceitar uma verdade
pouco confortável: as pessoas não são como nós. Quem faria tudo por alguém pode
descobrir que o outro faria muito pouco por ele. A pessoa que prometeu
permanecer pode ir embora sem explicar absolutamente nada. Quem parecia
compreender pode surpreender pela indiferença. Isso acontece com qualquer
pessoa, mas para quem passou boa parte da vida enfrentando barreiras impostas
pelo capacitismo, esperar que todos tenham a mesma disposição para lutar pode
produzir uma segunda frustração.
A diferença não precisa virar ressentimento. Talvez
amadurecer seja perceber que cada pessoa entrega o que consegue, aquilo que
quer ou que escolhe entregar. Nem sempre será suficiente assim como nem sempre
será justo. Ainda assim, não é possível construir uma vida inteira esperando
que o outro tenha a mesma consciência, generosidade ou coragem que temos.
A pessoa com deficiência tem direito de ficar
indignada, ter ambição e ao desejo de ocupar espaços que durante muito tempo
lhe foram negados. Mas existe uma hora em que a própria história precisa deixar
de girar em torno daqueles que disseram não.
Menos comparação com a vida do outro pois temos
muito trabalho pela frente, projetos a
realizar e lugares a ocupar. Nossa paz não deveria ser negociada a cada opinião
recebida.
A literatura nos ensinou que uma vida não se mede
por uma fotografia isolada. Talvez as redes sociais ainda precisem aprender
isso. E talvez nós também.
Fé não transforma a existência em vitrine. Ela dá
coragem para continuar quando a paisagem não corresponde ao que imaginávamos. No
fim, ninguém precisa viver a vida que aparece na tela do outro.
A pergunta mais importante continua sendo muito
mais íntima: o que você está fazendo com a vida que recebeu?

Fonte:
AtitudeNew